Madrid, 5 da tarde. O voo para o Cairo está a rebentar, quando a Fer me telefona.
Quando chegas? pergunta.
Meia-noite, má hora - digo eu - vou para a cama com comida de avião.
Estás louco, isto não é Cambridge, meu caro. Aqui tudo começa à meia-noite, e estes gajos não nos vão deixar dormir.
E não podia estar mais certa: à medida que o taxi penetrava na magia do Cairo, a noite morna, os cheiros, as luzes falavam de tudo menos de meia-noite.
O guarda do Hotel fala comigo em árabe, enquanto me faz passar pelo detector de metais - bom começo, pensam que sou árabe.
O Windsor é um antigo clube britânico que, felizmente, perdeu os seus ingleses, mas deixou um charme de Casablanca. Quase podemos ver o Rike, imortalizado por Bogard, no barman que nos serve aquela cerveja que dá a coragem para saltar para a noite inundada de gente. O hotel está no bairro mais popular do Cairo, e tem sido palco de filmes egipcios de época, lembrando historias de Naguib Mafuze.
Na rua, a maior surpresa são as montras, altas, enormes, a abarrotar de manequins de prata, que amplificam a luz com os seus vestidos de lantejoulas, brilhantes e missangas - Estilo Europeu, reza o letreiro.
Aqui a luz chocante deixa tudo numa escuridão que deixa adivinhar cafés escuros a tresandar a shisha e pó. Um pó fino que cobre tudo, e tudo nivela, como uma patine que borra as diferenças.
Entramos no fast food mais caótico que alguma vez vi. De novo, luz, gente e mais gente, cheiro de falafa e especiarias. A confusao é total: paga aqui, levanta acolá - a caligrafia arabe é linda mas pouco eloquente. Salva-me a Fer, que trata tudo por tu.